A combinação de infraestrutura LPWAN existente e a evolução do NB‑IoT em mobilidade abrem caminho para reduzir lacunas de cobertura em rotas remotas
Por Oswaldo Conti‑Bosso*
O Ministério das Comunicações anunciou, no fim de janeiro de 2026, uma política voltada à ampliação de conectividade em rodovias federais. A iniciativa recoloca em evidência um tema antigo — e ainda pouco resolvido: a existência de trechos extensos com baixa ou nenhuma cobertura, o que afeta a segurança viária, o atendimento às emergências e a eficiência de cadeias logísticas que dependem de comunicação contínua.
Pelos estudos divulgados, trata-se de um plano com maturação ao longo de três a quatro anos, com resultados mais amplos previstos para 2029/2030. Como em qualquer projeto de infraestrutura, o desafio está menos no “anunciar” e mais no “executar”: priorização de trechos, coordenação, investimentos e tempo de rollout.
Enquanto isso, cresce a discussão sobre abordagens complementares capazes de endereçar parte do problema no curto e no médio prazo — especialmente para casos de uso que exigem mensagens curtas, controle de custos e previsibilidade de entrega, como telemetria e rastreabilidade. É nesse contexto que a tecnologia NB‑IoT entra no centro do radar, agora com uma tendência que vem ganhando espaço: NB‑IoT aplicado à mobilidade.
A lacuna de cobertura não é nova — o que está mudando é o “como resolver”
Historicamente, a conectividade fora dos grandes centros sempre dependeu de escolhas difíceis: ampliar a infraestrutura (caro e demorado), recorrer ao satélite (nem sempre viável para o perfil econômico de certas aplicações) ou conviver com áreas de sombra.
Nos últimos anos, porém, a consolidação de redes com infraestrutura NB-IoT (LPWAN (Low-Power Wide-Area Network) abriu um caminho técnico interessante para aplicações que não precisam de banda larga — mas precisam de alcance, penetração e eficiência energética. LoRaWan e NB‑IoT passaram a ocupar um espaço importante nessa discussão; o mercado tem aplicado essas tecnologias com mais maturidade e comprovado que funcionam em campo, especialmente em rotas longas.
NB‑IoT: de tecnologia “estática” a realidade para nova mobilidade
A Narrowband IoT (NB‑IoT) nasceu e se consolidou em aplicações predominantemente estáticas (como medidores, sensores e monitoramento). Ao longo do tempo, foi incorporada às especificações de redes 4G e 5G e hoje conta com bilhões de dispositivos conectados globalmente.
O que muda quando se fala em mobilidade é a complexidade do ambiente de rádio: variação de cobertura ao longo de rotas, necessidade de comportamento consistente do dispositivo em movimento, trocas de torres de celular e a importância de manter a entrega de mensagens com maior eficiência, em cobertura e com baixo consumo energético.
Por isso, começa a ganhar tração uma linha de desenvolvimento que combina NB‑IoT com algoritmos e técnicas orientadas a mobilidade, buscando aumentar a robustez em cenários de rastreabilidade de veículos e ativos. A ambição é unir dois mundos: a eficiência de LPWAN às exigências reais de operação em trânsito.
Infraestrutura existente: NB-IoT – um ativo pouco explorado em IoT móvel
Um ponto que costuma ser subestimado fora do setor é que a conectividade para IoT não depende apenas de “ter sinal”, mas também de como esse sinal é usado em arquiteturas de baixo consumo e longo alcance.
Nesse sentido, existe uma discussão crescente sobre como a base de infraestrutura das operadoras instalada de NB‑IoT — já presente em parte relevante do território — pode ser melhor aproveitada por aplicações que precisam funcionar fora do “mapa ideal” de cobertura. Isso não substitui investimentos estruturais em infraestrutura, mas pode atuar como camada complementar em casos de uso específicos.
O que os testes de campo comprovam: alcance, consumo e resiliência
Experiências práticas com NB‑IoT rastreador móvel em campo, apresentam três aspectos que ajudam a explicar o interesse crescente do mercado:
1) Alcance e penetração
Em validações em regiões remotas, há registros de comunicação entre dispositivo e ERB em distâncias na casa de dezenas de quilômetros — em um dos casos, com 66,14 km.

2) Resiliência operacional ao longo de rotas
Em rotas extensas, atravessando diferentes estados e perfis de cobertura, observa-se a alternância entre mensagens enviadas online e logadas (armazenadas e transmitidas quando há reconexão). Esse comportamento é esperado em ambientes com variação de cobertura e pode ser gerenciado por meio de lógica de aplicação (buffer, políticas de retransmissão e janelas de envio).


3) Eficiência energética como diferencial de arquitetura
Para fins de rastreabilidade, o consumo energético é um componente direto do custo total de operação, especialmente em dispositivos autônomos. Em medições, há resultados bastante baixos, como:
- 350 μAh (0,35 mAh) em dispositivos alimentados em veículos leves e pesados
- 10 μAh (0,01 mAh) em dispositivos autônomos (somente bateria)
Na prática, isso tende a favorecer modelos de operação com maior autonomia, menos manutenção e projetos de rastreabilidade de ativos que permanecem por longos períodos em trânsito ou em áreas remotas.

Redundância LPWAN: LoRaWan como tecnologia complementar em cenários críticos
Outra tendência que se manifesta com força em projetos reais é a combinação de tecnologias LPWAN em arquitetura híbrida. Em operações críticas, faz sentido que a conectividade tenha “planos B” para lidar com falhas, interferências e situações de exceção.
Nesse modelo, a tecnologia LoRa pode atuar como camada complementar — via LoRaWAN (rede pública) e LoRa P2P (entre dispositivos) — inclusive em cenários em que haja suspeita de interferência intencional (como o uso de bloqueadores/jammers). Em validações, há registros de transmissões LoRaWAN a 96 km de distância.

A tendência é combinar infraestrutura, tempo de rollout e soluções complementares
A expansão de conectividade nas rodovias brasileiras é um passo importante e necessário. Mas, do ponto de vista tecnológico, o mercado tem apontado para uma abordagem cada vez mais pragmática: combinar projetos estruturantes, de longo prazo, com soluções suplementares de curto prazo para casos de uso específicos.
Nesse cenário, a evolução do NB‑IoT rastreador móvel — especialmente quando aplicada à mobilidade — tende a ganhar espaço por reunir atributos que importam em campo: alcance, penetração, eficiência energética e robustez operacional. Para rastreabilidade e telemetria em rotas remotas, essa discussão deixa de ser teórica e passa a ser uma agenda prática de inovação.
*Sobre o autor: Oswaldo Conti‑Bosso é o Presidente da BWS IoT, empresa brasileira especializada no desenvolvimento de tecnologia para o mercado de Internet das Coisas (IoT), com foco em soluções de rastreamento, telemática, conectividade e recuperação de ativos.